Autenticidade no mundo pós-digital
- Andrea Lebre
- 31 de dez. de 2023
- 5 min de leitura
Atualizado: 2 de jan. de 2024
ELIS MORREU, MAS NÃO TOTALMENTE. (*1)

BRASIL, 2023. O comercial de uma marca de carro nos apresenta a artista Elis Regina cantando em dueto com a sua filha, Maria Rita.
São muitas as camadas a questionar sobre autenticidade, tanto sob o aspecto de transparência pessoal, como sob o aspecto de veracidade e acuracidade da informação divulgada.
Resumidamente seguem os fatos, baseados em CRUZ (2023):
Elis Regina faleceu em 1982, quando a sua filha Maria Rita tinha 4 anos.
No vídeo veiculado, Maria Rita tem 45 anos e Elis não está mais aqui para autorizar o uso da sua imagem, recriada pela deep fake.
A autorização foi concedida pelos filhos, detentores desse direito. Eles alegaram que seria bom que as gerações mais novas tivessem a oportunidade de conhecer o talento absoluto e indiscutível de Elis. O alto valor recebido como pagamento, não foi mencionado como motivação. A família do compositor da música, Belchior, seguiu pelo mesmo caminho.
A música escolhida, “Como nossos pais” é uma crítica aberta à inércia da juventude brasileira no regime militar e a empresa que assina a propaganda teve laços comprovados com a ditadura, regime a que Elis e Belchior se opunham com afinco.
Tudo isso envolto por uma forte carga emocional, natural no mundo publicitário, e viabilizada pela inteligência artificial (sem que seu uso fosse declarado no comercial).
Considerando os fatos, o que tem de autêntico nesse cenário? Quase nada. Apenas a intenção de vender um produto, uma marca. O restante foi construído – ou melhor, manipulado – para chegar a esse objetivo.
E eu, publicitária de formação e uma entusiasta, evangelista e usuária da Inteligência Artificial, não tive coragem de assisti-lo, dado o estranhamento que me causou. Aquilo não era real e, reparem, isso não é necessariamente ruim.
Temos convivido com o hiper-realismo, já há algum tempo. Sabemos que “na sociedade do consumo avançado, os objetos e eventos não são mais valorizados por seu conteúdo real, mas por sua capacidade de simular algo a mais” (Baudrillard, 1970)
O desconforto nesse caso veio de um lugar de incoerência, de falta de autenticidade, de desinformação, de equívocos históricos e de motivações duvidosas. E fica a questão: “nessa comédia de enganos, quem é quem afinal?” (TEIXEIRA, 2023)
Convido-os a seguir nesse questionamento.
A AUTENTICIDADE NA VISÃO FILOSÓFICA
Ao investigar como a autenticidade apresenta-se no mundo pós-digital, que tal começar com uma pequena reflexão sobre o que significa ser autêntico? O que significa praticar a autenticidade? Vamos regressar às bases, quando a tecnologia e o mundo pós-digital não intermediavam, e nem afetavam, a manifestação, ou não, da autenticidade.
Para Heidegger (1927), a autenticidade está ligada à prática de assumir a responsabilidade por sua própria existência, escolhendo conscientemente seu modo de ser, agir e se apresentar, baseado em seus valores morais e éticos, em vez de adotar as normas e expectativas impostas pela sociedade, o que caracterizaria à inautenticidade. Ele argumenta que muitas pessoas vivem de maneira inautêntica, imersas nas preocupações cotidianas e na opinião pública, “sem se confrontarem com sua própria existência de forma autêntica, honesta e transparente”. A incoerência entre o que a pessoa pensa e sente e o que ela faz e apresenta é um ponto importante dessa discussão. Segundo Foucault (1971), uma pessoa autêntica apresenta posições, valores e ações coerentes entre si, onde o discurso é igual à prática.
Assim, a busca pela autenticidade e a tradução em comportamentos visíveis nunca foi uma prática fácil, exigindo atenção e escolhas constantes. "A autenticidade é a possibilidade do ser humano se entender como autor de sua história, responsável por suas escolhas." (Heidegger, 1927) e, em complemento, diz Taylor: "A busca pela autenticidade envolve a descoberta e expressão dos valores que são verdadeiros para nós, em oposição aos valores impostos pela sociedade." (Taylor, 1992)
Assim percebemos que a busca pela autenticidade sempre foi uma tarefa árdua e disciplinar, exigindo atenção constante. Diz Taylor (1922) que a autenticidade é uma maneira profunda e rica de comprometimento consigo mesmo e com o mundo, e que a sua busca está enraizada na dignidade humana, na ideia de cada um de nós tem uma voz interior que merece ser ouvida.
“Torça, quebre, reaja como for preciso: mas seja autêntico, autêntico a qualquer preço” (Nietzsche, 1908)
Esse é um caminho que vale à pena viver, segundo a filosofia. Mas, será que ser autêntico e buscar a autenticidade são objetivos viáveis no mundo pós-digital?
AUTENTICIDADE EM UM MUNDO PÓS DIGITAL E HIPER-REAL
O mundo pós-digital é caracterizado pela integração e influência da tecnologia às nossas práticas diárias, incluindo seu impacto em nossas ações fora do ambiente digital. “Hoje estamos a viver a 4ª revolução industrial: um mundo completamente digital, globalizado, onde as informações são consumidas e compartilhadas o tempo todo, de qualquer lugar, com a rapidez de segundos” (ZILLIG, n.d.). Esse fenómeno altera quem somos e como nos apresentamos, molda o mundo em que vivemos, trabalhamos e nos relacionamos.

Além disso, o pós-digital traz ainda mais intensidade ao conceito da hiper-realidade, descrito por Baudrillard em seu livro Simulacros e Simulação (1981). Na obra, além de argumentar que a simulação do real é mais valorizada – e consumida – do que o conteúdo real original, ele nos questiona se o acesso ao real ainda é possível, uma vez que a tecnologia nos dá possibilidades de alterar a realidade.
De 1981 para cá, esse cenário cresceu exponencialmente em complexidade. A chegada e a evolução da internet permitiram a todos que ajustassem a realidade, seja pela forma em que cada um escolhe se apresentar ou mesmo o conteúdo que publica. O objetivo passa a ser o que se quer demonstrar, não necessariamente o que se é.

Testemunhamos a chegada dos algoritmos, a febre das redes sociais, as ondas de fake news e o surgimento e consolidação da inteligência artificial, principalmente no que diz respeito ao uso da deep fake, onde já não é possível nem mais confiar em nossos olhos e ouvidos. Tudo isso traz uma ruptura para nossa noção de realidade e, consequentemente, de autenticidade.

Do ponto de vista pessoal, com quem estamos nos relacionando? É possível saber?
Do ponto de vista da qualidade do conhecimento que buscamos e consumimos, como podemos garantir sua acuracidade?
E nós? Estamos nos preocupando com a imagem que passamos e como atuamos? E estamos preocupados de fato em gerar, consumir e propagar informação de qualidade?
CAMINHOS POSSÍVEL: REFLEXÃO E AÇÃO
“O segundo diluvio não terá fim. Não há nenhum fundo sólido sob o oceano de informações. Devemos aceitá-lo como nossa nova condição. Temos que ensinar nossos filhos a nadar, a flutuar, talvez a navegar” (LEVY, 1997)
Levy (1997) nos traz a reflexão de que não iremos retornar a um terreno seguro, o segundo dilúvio de informações continuará. Em paralelo, os traços e tecnologias do mundo pós-moderno continuarão a chegar sem pedir licença.
O convite aqui vai no sentido de buscar a sua curadoria pessoal e coletiva, tanto em como constróis e apresenta sua própria autenticidade, como em como percorre o caminho de validação da autenticidade de informações que consome.
Ainda estamos a aprender a viver em um mundo sem respostas. O olhar atento, o pensamento crítico, a investigação científica, a acuracidade das fontes ainda são fortes aliados. Mas, até quando?
Referências
(*1) Frase adaptada de Salvador Dali. Frase original: “Dali morreu, mas não totalmente.” (como citado por Teixeira, 2023)
Baudrillard, Jean. (1970). A sociedade do consumo. Letra livre.
Baudrillard, J. (1990). Simulacros e simulação. Relógio d'Água.
Cruz, Felipe. (2023). A decisão do CONAR sobre comercial que reviveu Elis Regina. Revista VEJA. https://veja.abril.com.br/coluna/o-som-e-a-furia/a-decisao-do-conar-sobre-comercial-que-reviveu-elis-regina
Heidegger, Martin. (1927) Ser e Tempo. Editora Vozes.
Levy Pierre. (1997). Cibercultura. Editora 34.
Nietzsche, Friedrich. (1908). Ecce Homo. Martin Claret.
Taylor, Charles. (1922). The Ethics of Authenticity. Harvard University Press.
Zillig, Guilherme (n.d.). Era pós-digital: o que esperar do futuro quando a tecnologia se tornar algo ordinário. Singularity Brazil. https://blog.singularityubrazil.com/blog/era-pos-digital-o-que-esperar-do-futuro-quando-a-tecnologia-se-tornar-algo-ordinario/





Andréa, parabéns pelo maravilhoso texto. Respaldado teórica e cientificamente, mas sem perder o emotivo, o pessoal! Para mim, foi uma leitura muito proveitosa. Sucesso na jornada, Sônia Cotrim