Cibercultura: reflexões e exemplos
- Andrea Lebre
- 12 de nov. de 2023
- 4 min de leitura
O CONVITE DE PIERRE LEVY
Pierre Levy, filósofo e sociólogo francês da atualidade, nos faz um convite que instiga: entender e apreciar a “natureza exponencial, explosiva e caótica” do surgimento e crescimento da internet, com todo o seu “dilúvio de informações” e possibilidades infinitas de conexões, sob um ponto de vista otimista, agindo a partir daí.

Como resultado da “bomba das telecomunicações”, mencionada por Einstein ainda nos anos 50, e da revolução tecnológica das últimas décadas, a ‘internet’ evolui exponencialmente e hoje temos à disposição infinitas possibilidades de conexões com dados, informações, conhecimentos e pessoas. Conexões que continuarão a multiplicar-se e a gerar novos caminhos na economia, na política, na sociedade, na cultura, na educação e em todas as esferas com que interagimos.
Essas novas condições criam possibilidades inesperadas para o desenvolvimento de pessoas e da sociedade, mas “não determinam automaticamente nem as trevas e nem a iluminação para o futuro” (Levy, 1997).
Isso é tarefa nossa, fruto das nossas escolhas como seres humanos que buscam caminhos que nos levem a solucionar os grandes desafios que temos a nossa frente, de construir um mundo mais justo, acessível e sustentável para todos.
Assim, o convite de Levy é para olharmos para esse momento sob a perspetiva humanista, assumindo uma postura de abertura ao novo cenário que se apresenta: “cabe a nós explorar as potencialidades mais positivas nos planos económico, político, cultural e humano”.
Nesse artigo, percorreremos brevemente o conceito de cibercultura de Levy e apresentar alguns exemplos de como observamos essa cultura na prática.
O CONTEXTO DA CIBERCULTURA
“Tudo aquilo resultante da criação humana”, esse é o conceito de cultura na visão da sociologia. São as ideias, os artefactos, os costumes, as leis, as crenças morais, os conhecimentos, adquiridos a partir do convívio social.
Com o surgimento do ciberespaço, novo meio de comunicação resultado da interconexão mundial dos computadores, Levy cunha o neologismo “Cibercultura” (1990) e assim designa o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que crescem com “ciberespaço”.
Importante ampliar a nossa visão aqui: o conceito ciberespaço não deve ser restringido à infraestrutura, mas também à informação e conhecimentos produzidos, à forma como navegamos, nos relacionamos, consumimos e produzimos conteúdo nesse espaço. Interessante notar que a cibercultura não exclui o mundo físico, já que o afeta diretamente.
O DESAFIO DO “SEGUNDO DILÚVIO DE INFORMAÇÕES”
A cibercultura inunda o mundo com informações de maneira ininterrupta e excessiva, causando, nas palavras de Levy, um “segundo dilúvio”. Para o filósofo francês, precisamos nos adaptar a essa nova condição e aprender a navegar entre tantas informações. Aqui está um dos principais desafios, presentes também nas questões da educação.
Uma nova arca de Noé é possível? Conseguiríamos filtrar, selecionar e proteger um “património essencial da sociedade”? Qual o papel dos educadores se estivessem no lugar desse novo Noé?
Para além da provocação inicial, Levy nos leva a uma nova imagem desse “dilúvio” contemporâneo. Assim como o Noé do dilúvio original, ele afirma que devemos aceitá-lo como “nossa nova condição”, apesar de saber que não mais voltaremos à terra firme.
O caminho de solução não passa por uma arca única, cada um de nós tem a responsabilidade individual de navegar na sua arca, de filtrar, selecionar e proteger as suas informações, conhecimentos e contactos, tendo como bússola os seus interesses, necessidades, vontades e objetivos. Cada um de nós está no leme da nossa arca.
Porém, não estamos sozinhos a navegar nesse mar. Outras arcas navegam no ciberespaço. O nosso papel é manter um processo de troca com elas e essa é a nossa responsabilidade coletiva: não enclausurar os nossos conteúdos como definitivos, nem como respostas absolutas. A nossa arca não está, e nem pode estar, só. A força está no que podemos construir coletiva e colaborativamente. O mundo é complexo demais para não construirmos pontes, precisamos trabalhar, pensar e criar juntos.
Nesse mar da coletividade, nas relações que acontecem no mundo digital, surgem muitos exemplos da cibercultura.
EXEMPLOS DE CIBERCULTURA
A seguir, alguns dos exemplos citados acima e que servem de inspiração também para a área de educação, em todo o seu potencial e desafios.
“As possibilidades tecnológicas são como um espelho que nos faz nos refletirmos nele, e ver o melhor que há em nós… E também o pior.” (Levy, 2021)
WIKIS: O ciberespaço também permite a construção de saberes a partir do compartilhar de informações, de maneira prática. As “wikis” são sítios web que compilam informações sobre um certo assunto, seja ele um tema, um jogo, uma série de livros, ou um estilo artístico. Neles, é possível compartilhar fatos sobre o assunto e trocar informações com outros interessados. A série de jogos “Pokemón”, por exemplo, conta com a “PokePédia”, sítio web que organiza informações para facilitar o envolvimento de outros jogadores. A formação de uma comunidade ao redor de um tema traz impulso ao aprendizado coletivo, bem como a produção de novos saberes.
INFLUENCERS: A criação da plataforma “YouTube” em 2005 resultou em um novo estilo de comunicação: a criação de conteúdo aberta à interação. Hoje qualquer pessoa pode abrir “a sua arca” de saberes e compartilhá-la, atraindo a atenção dos interessados nesses conhecimentos. A interatividade presente nesse tipo de estrutura faz com que novas conexões surjam daí, tanto conexões informacionais quanto conexões pessoais, gerando infinitas possibilidades de aprendizado.
FANFICS: A literatura tornou-se mais acessível com a evolução do mundo virtual. As “fanfics” (abreviação de “fanfiction”) são obras literárias escritas por fãs de uma obra já existente, nas quais o autor cria novas histórias dentro daquele universo pelo qual se interessam. Sítios web como o “Wattpadd” ou o “Archive Of Our Own” permitem a rápida propagação dessas obras na comunidade de cada universo. Ao tomar-lhe a jornada do autor e dar a sua própria marca à obra, o aluno entrelaça o tema com sua perspetiva e interesse, com a construção, então, de novo aprendizado e novo conhecimento.
Em comum, altos níveis de criatividade, participação e compartilhamento. Existem outros tantos exemplos.
Consegue visualizar o potencial disso tudo para a educação? Eu sim. 😊
Referência:
Lèvy, Pierre (1999), Cibercultura, Editora 34





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